Equanimidade não é Apatia

Esta é uma tradução que eu fiz do texto “Equanimity Isn’t Apathy”.

Existe um discurso no qual Buda ensina seu filho, Rahula, como meditar. Antes dele o ensinar a meditar com a respiração, ele diz a Rahula, “Treine sua mente para se tornar como a terra. Quando coisas sujas são jogadas na terra, a terra não fica com repugnância. Quando coisas perfumadas são jogadas sobre a terra, a terra não fica encantada.”

Então ele continua com os outros elementos. O fogo queima coisas do lixo, e não fica com repugnância por elas, e queima coisas cheirosas e não fica encantado por elas. A agua lava coisas sujas, lava coisas cheirosas, mas não se sente de uma forma ou outra sobre ela. O vento sopra coisas sujas, e sopra coisas cheirosas, e não se sente com repugnância por um, ou com empolgação por outro. Então, tendo estabelecido esse princípio de equanimidade, esse princício de não permitir que a mente fique eufórica por coisas boas, ou deprimida por coisas ruins, o Buda começa a ensinar a meditação da respiração. Mas ele não ensina Rahula a se tornar apático sobre a respiração, dizendo, só aceite qualquer respiração que exista. Parte das instruções é se treinar a respirar de forma que você esteja sensível a todo o corpo, que você tenha prazer, que você tenha experiência de ruptura. Esses são treinamentos–coisas que você deve ter vontade para que aconteçam.

Então equanimidade não significa apatia. Significa colocar a mente em uma posição em que ela é capaz de aprender sobre causa e efeito. Você deseja observar como as coisas realmente acontecem sem que os seus gostos e desgostos estejam atrapalhando a ver o que realmente está acontecendo, mas você definitivamente tem preferências por detrás do seu desejo de observar. Você quer observar, de forma que você aprenda como respirar confortavelmente. Você quer ter a experiência de ruptura. Você deve se preocupar em desenvolver o prazer, essas coisas são importantes na prática. Você precisa delas para continuar na prática. Sem elas, a prática se torna entorpecida, apática, seca. Ela começa a se apagar.

O que o Buda estava treinando o Rahuna era em obter um estado mental capaz de enxergar causa e efeito. As vezes as coisas vão realmente muito bem, e você fica animado, e você as perde. Quando as coisas vão mal, você sente repulsa e você as larga. Você não é suficientemente estável para observar por que elas vão bem, e por que elas vão mal. Você não aprende em nenhum dos casos. A atitude que Buda quer é que quando as coisas vão bem, você aprenda porque elas vão bem. Ao invés de ser carregado para longe com quão maravilhosas são as coisas, você se pergunta, o que está acontecendo aqui? O que causou esse estado? As vezes essa análise, se você a fizer enquanto as coisas estão acontecendo, vão interferir com as coisas que estão acontecendo, então você deve aprender a realizá­la logo em seguida. As vezes, no entanto, não é esse o caso. Se a sua concentração for suficientemente forte, você pode se observar ao mesmo tempo que as coisas acontecem.

Então, a questão repousa em trazer a sua mente em um estado na qual ela está disposta a aprender, capaz de observar causa e efeito, de forma que você possa dominar essa habilidade. É assim que a equanimidade funciona. Ela não implica em não se importar com o que aconteça. Você se importa, mas se importa também em aprender sobre causa e efeito: o que realmente funciona em fazer com que a respiração seja confortável, o que realmente funciona em fazer com que a mente se acalme. Você não pode simplesmente querer ter o poder de que as coisas sejam de uma forma ou de outra. Você precisa aprender o que realmente funciona, o que não funciona. Você pode ter algumas idéias sobre o que deveria funcionar, mas quando você descobrir que elas não funcionam, você as deixa. Você não está apegado às ideias.

Há uma passagem famosa na qual o terceiro patriarca Zen diz que o grande caminho não é difícil para aqueles que não tem preferências. Em termos dos ensinamentos de Buda, existe apenas uma interpretação na qual isso faz sentido, que é a de que você não tem preferência sobre o que vai funcionar. Você aceita o que funciona, você adimite o que não funciona. Existem formas de meditação que você gostaria de ver funcionando, mas se elas não funcionam, você as deixa de lado. Existem métodos em relação aos quais você pode ter um desgosto preconcebido, mas se você descobre que eles de fato funcionam, você não deixa os seus gostos e desgostos atrapalharem. Isso faz com que o grande caminho seja muito mais fácil.

Olhe para o ensinamento de Buda das quatro nobre verdades. Você trata a causa do estresse de forma diferente do caminho para o fim do estresse. Você tenta abandonar essa causa, e desenvolver o caminho. Você não diz “Eu não me importo com o que aconteça, se eu tenho estresse ou se eu não tenho”. Você se importa sim. Você se importa tanto, que você está realmente disposto a aprender, a colocar todo o tempo e esforço necessário para aprender. Mas você pode descobrir que isso requer que você medite nas 32 partes do corpo. Várias pessoas não gostam disso, mas isso pode ser muito eficaz. Você percebe que se você quer vencer a luxúria, você precisa realmente olhar para o corpo, tomá­lo por partes, seção por seção na sua mente. Então fazê­lo de novo, e de novo, e novamente, quantas vezes forem necessárias até que os resultados finalmente quebrem a luxúria.

Você pode decidir que você prefere um caminho fácil e agradável, um caminho que envolva apenas deixar pra lá, deixar tudo pra lá, sem ter que fazer esforço, sem ter que desenvolver nenhuma habilidade, sem ter que alcançar nenhuma meta. Mas quando você descobrir que isso não funciona, você precisa colocar isso de lado, juntamente com todas as suas outras ideias pré­concebidas. Se um caminho que funciona requer muito trabalho, não tenha medo disso. A mente tem várias formas de procurar por uma saída fácil. “Todo esse trabalho para a prática da concentração é apenas um apego”, sua mente pode dizer. “Bem, eu vou além desse apego, vou pular isso, por que eu já sei como isso funciona.” Você não pode pular essa parte. Você precisa dominar esse processo, pois é isso que desenvolve seu discernimento.

A mente pode encontrar todas as formas de evitar o esforço na prática. Você pode decidir, “Bem, eu simplesmente não dou conta disso, eu não sou bom o suficiente para isso. Não fui feito para isso.” Aprenda a reconhecer esse tipo de pensamento pelo que ele realmente é. É a voz da preguiça tentando encontrar alguma forma de contornar a prática. Como Ajaan Maha Boowa disse uma vez, não tenha medo do esforço requerido pela prática. Não a veja como um carrasco. Ela não vai te matar. Ela pode talvez requerer mais de você do que o que você prefere. Mas pense na alternativa se você não a fizer. Você pode terminar a sua vida olhando para o passado, pensando “Gente, eu poderia ter colocado mais esforço nisso, mas eu não o fiz.” Essa não é uma forma positiva de olhar para o seu passado. É melhor pensar “Eu sabia o que precisava ser feito, e eu o fiz. Se eu consegui ir até o final ou não, pelo menos eu fiz o meu melhor. Se eu não cheguei até o final, eu tenho outra vida vindo. Eu poderei trabalhar nisso novamente.”

É isso que significa ser uma pessoa sem preferências. Você coloca a quantidade de trabalho que é necessária. Você aprende a desenvolver as habilidades que são necessárias. O que quer que o caminho requira, você está disposto a fazer. Se você não está disposto a fazer, você encontra maneiras para se tornar disposto a fazer. Você está disposto a colocar toda a meticulosidade necessária, todo o tempo, toda a energia, aprendendo a ser muito, muito observador. Quando você acha algo que funciona, então quer você goste ou não, você se torna um mestre na coisa. Mas se você tentar planejar o caminho antes de trilhá­lo, esta é apenas a sua ignorância falando, suas preferências falando. Você já está seguindo a sua ignorância e as suas preferências por quantas vidas passadas? As vezes elas te levam para bons resultados, mas muitas vezes elas não te levam. Então é hora de colocá­las de lado.

Aprenda a desenvolver uma mente que é como a terra. Aprenda a desenvolver uma mente que é como o fogo–não no sentido de te queimar, mas no sentido de estar disposto a queimar qualquer coisa, seja ela preferível ou não. Esse é o dever natural dela. Pense na meditação como um dever natural. Você está aqui nesse corpo. Esse corpo está causando sofrimento para muitos outros seres, pois para mantê­lo vivo, é necessário alimentá­lo, é necessário vestí­lo, é necessário dar­lhe abrigo. Observe quanto trabalho é necessário para conseguir abrigo. Estamos construindo essas habitações por 2 anos já, e elas ainda não estão prontas. Para que esse corpo esteja vivo, ele está dependendo no sofrimento de outras pessoas, outros seres. Quando você deixar esse corpo, você vai ganhar outro, e independente de qual corpo seja, será o mesmo processo de novo. Existe, no entanto, uma caminho para terminar esse processo. Ele leva á mais alta felicidade para você e não impõe nada à nenhum outro ser. A meditação é esse caminho. Então pense nela como um dever. Não importa o que seja necessário, você o faz, sem deixar suas preferências atrapalharem.

Cada uma das quatro nobres verdades tem o seu dever específico, de acordo com a preferência de não sofrer. Você definitivamente quer trabalhar em direção ao fim do sofrimento. Você prefere isso sim. Essa é uma preferência legítima. A questão é, o que é necessário para chegar lá? Quando você aprender o que é necessário, você faz o que quer que seja necessário–mesmo quando você já tiver realizado essa tarefa.

Observe o Buda. Mesmo depois do seu despertar, ele passou 45 anos estabelecendo seus ensinamentos, o Darma e o Vinaya. Isso deu muito trabalho. E ele não o fez de forma apática, pensando “Eu não me importo se isso funcione ou não”. Ele colocou muito esforço para criar um ensinamento que fosse durar. Ele percebeu que algumas pessoas iriam pegar o ensinamento e o colocar em bom uso, mas ele não se deixou ficar eufórico por isso. Tiveram pessoas que ouviam, mas não colocavam o ensinamento em bom uso. Ele sabia como não ficar deprimido em função disso. Ele tinha estabelecido a consciência de tal forma que ele fazia o que precisava ser feito. É claro que ele preferia fazer um bom trabalho ao ensinar. Mas em relação aos resultados que vinham, quantas pessoas aplicavam o ensinamento, aí que ele desenvolveu a mente que era como terra, agua, fogo e vento. Ele fez o melhor dele, mas em relação à como as outras pessoas encaravam o que ele estava fazendo, ele aprendeu a deixar isso de lado.

Então, a apatia não tem lugar nos ensinamentos. Você precisa ter preferências. Você precisa sim colocar um fim no sofrimento. Você precisa ver essa preferência como tão importante, que você está disposto a deixar todas as suas outras preferências, especialmente a preferência pela apatia, de lado.

Written on July 9, 2016